A Gronelândia prepara uma comissão de reconciliação para sarar as feridas da contraceção forçada
A Gronelândia vai avançar com a criação de uma comissão de reconciliação para sarar o trauma deixado por décadas de políticas de contraceção forçada. A decisão surge após a entrega de dois relatórios ...

A Gronelândia vai avançar com a criação de uma comissão de reconciliação para sarar o trauma deixado por décadas de políticas de contraceção forçada. A decisão surge após a entrega de dois relatórios de especialistas que não conseguiram chegar a um consenso sobre a classificação destas práticas como genocídio.
O executivo do território autónomo sublinha a urgência de iniciar um processo de cura. O objetivo passa por trabalhar em estreita colaboração com o governo de Copenhaga para esclarecer as violações de direitos humanos cometidas contra a população inuit.
Especialistas divididos sobre cenário de genocídio
A comissão de peritos encarregue de avaliar as implicações legais da colocação não consensual de dispositivos intrauterinos (DIU) apresentou conclusões divergentes. A entrega dos documentos ocorreu com quase seis meses de atraso face ao calendário inicial.
Marianne Paviasen, ministra da Justiça da Gronelândia, explicou que os relatórios revelam perspetivas opostas. Um dos documentos descarta totalmente a tipificação legal de genocídio, enquanto o outro admite essa forte possibilidade.
Apesar da falta de unanimidade quanto à terminologia, os peritos concordam num ponto central. A campanha dinamarquesa violou de forma clara e reiterada os direitos humanos e os direitos dos povos indígenas.
O trauma marcado nos corpos das vítimas
O programa estatal dinamarquês decorreu entre as décadas de 1960 e 1990. Durante este período, o sistema de saúde colocou o DIU a mais de 4.000 mulheres da Gronelândia. Em muitos casos, as vítimas tinham apenas 12 anos e nunca deram o seu consentimento, nem os seus pais.
As consequências médicas e psicológicas destruíram vidas inteiras. Muitas raparigas perderam definitivamente a capacidade de procriar, enfrentaram dores crónicas severas e necessitaram de múltiplas intervenções cirúrgicas ao longo da vida. O escândalo ganhou dimensão mediática apenas em 2022, na sequência do testemunho público das sobreviventes.
Henriette Berthelsen, uma das vítimas, critica a ausência de especialistas inuítes na elaboração das atuais investigações. A sobrevivente reivindica o direito inalienável à autodeterminação e lamenta que continuem a ser entidades externas a classificar os abusos cometidos contra o seu corpo.
Dinamarca aprova indemnizações
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, apoiou de imediato a iniciativa do território autónomo. A líder do executivo considera que a comissão representa uma oportunidade essencial para escrutinar o passado colonial e assumir a responsabilidade pelo sofrimento infligido.
O Parlamento da Dinamarca aprovou na mesma semana o pagamento de indemnizações às vítimas destas práticas. A medida materializa o compromisso assumido no ano passado, quando Frederiksen formalizou um pedido oficial de desculpas em nome do Estado.
As relações entre Nuuk e Copenhaga atravessam uma fase de reavaliação histórica profunda. Os dois governos procuram sarar os traumas de políticas passadas que separaram famílias e silenciaram mulheres, num momento em que a vasta ilha ártica desperta um crescente interesse estratégico internacional.





























